|| Joana Carvalho Fernandes
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O homem que era um palco

Era uma noite das que adormecem o nariz. Almada estava agasalhada, mas havia de despir-se dali a pouco. Era noite de rock. Ele não tinha o nariz gelado, nem precisava de se agasalhar. Foi o primeiro a entrar na sala, e o verdadeiro espectáculo da noite. – “Booora!” A voz era grossa e vinha de … Continuar a ler

Os cães, a garganta e os sapos

“Nós, pobres, devíamos alargar a garganta, não para falar, mas para melhor engolir sapos”. Zedmundo. Mia Couto in O Fio das Missangas Aqui não chega correio. Não há água. Não há luz. Há lixo no chão e barracas a enquadrá-lo. Cheira muito mal. Há hortas secas e miúdos sujos e descalços, a levantarem pó do … Continuar a ler

A máquina de lavar

«Josyane de Bagnolet nasceu de subsídios e de um feriado em que a manhã se espreguiçava, feliz, ao som de “Je t’aime, tu m’aimes”. (…) Vieram depois mais dez irmãos, trazendo como recompensa aos seus pais a máquina de lavar, o frigorífico, a televisão, o carro… » Christiane Rochefort, Les Petits Enfants du siècle Estava … Continuar a ler

A prenda dele

Lembro-me de quase tudo. Vejo bem o meu cabelo: mais comprido, pelo queixo, mas com os mesmos caracóis. Eu tinha oito anos e franzia o nariz, desagrada. Tinha na mão um embrulho tosco que não sei precisar; era uma prenda, disso tenho a certeza. Lembro-me de estar preocupada. Quando sair da primária vou ter que … Continuar a ler

Vergonha dos olhos dos outros

«Paga-me um café e conto-te a minha vida. (…) Pago-te um café se me contares o teu amor.» José Tolentino Mendonça – “Estou aqui porque ainda não consegui dinheiro suficiente para a passagem. Vou para Almada.” – “Se quiser companhia podemos ir as duas”. – “Oh, filha, mas eu ando muito devagar!” – “Não faz … Continuar a ler

A cara velha da menina bonita

À volta dela havia uma mina de saudades – que se vai perceber o que é daqui a uns parágrafos – e um vento forte, de fim de tarde de inverno. Começava a cair com vergonha uma chuva miúda e gelada. Ao fundo vinha, em passo apressado, já de sorriso posto nos olhos e de … Continuar a ler

De olhos bem abertos

Não interessa o seu nome. Interessam uns olhos grandes, muito verdes, e umas pestanas enormes. Interessa que tinha os olhos verdes molhados e a cara com as marcas de parte da estória que se segue. Ainda não era um homem: tinha 17 anos e soluços de menino. Fungava e soluçava, cheio de desamparo. E intrigava-me. … Continuar a ler

A prima Lucy

Esta estória tem sotaque alentejano. E a prima Lucy também.Eu tenho uma prima Lucy, ou Luce, em alentejano. Na verdade, não é incorrecto dizer que tenho duas primas. A Lucy, já se percebeu, é uma prima matrafona: alta, larga – de ombros e de ossos – e com boas pernas. A Lucy é tal e … Continuar a ler