|| Joana Carvalho Fernandes
a ler
França, Imigração, Luta, Paris, Pessoas, Uncategorized

Três minutos antes de o metro chegar

O homem negro vestido de negro grita. Está de pé, de gorro, de dedo no ar, pés na plataforma. Linha 13, estação de Brochant, três minutos para o metro chegar.

Caminha. Grita. A mão que reza a missa não tem luva. O sermão faz eco ora à esquerda, ora à direita, no túnel.

“Vocês dormem em pé! Vocês não pensam! Vocês estão dormentes, trabalho-casa-casa-trabalho. Engolem tudo, não exteriorizam!”.

Caminha, inspira, insiste. “Vocês são marionetas! É preciso pensar, é preciso trabalhar o espírito, exorcizar os exércitos que tomam conta das nossas cabeças! Acordem!”. Ninguém reage. Há sete bancos, vermelhos, redondos, para mais de vinte pessoas em pé.

Ele caminha, inspira, não desiste. Braço no ar, o sermão a sair-lhe pela mão: “E passam o dia nisto, não pensam! Dormem, dormem, mesmo acordados, mesmo em pé. Marionetas!”.

Ninguém reage. O metro corta o eco. Desaparece em direção a Saint-Lazare.

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