|| Joana Carvalho Fernandes
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França, Joana Carvalho Fernandes, Paris, Uncategorized

Portugal a bater à porta

Do lado de fora da porta está uma mulher baixa, robusta, de cabelo curto, desalinhado, de espanador na mão. Saberemos, depois de soar a campainha, que quem-é?-sou-eu-eu-quem?-sou-eu. Saberemos, portanto, que ela é ela, a sorrir e a fazer subir o queixo, olhos de um azul inquieto, a preparar-se para dizer, num francês lento, próprio de falar para um estrangeiro, que é a porteira do prédio, e que o administrador do condomínio lhe ligou de manhã porque acha impróprio que o meu nome na caixa do correio esteja escrito num papel cor-de-rosa. Que tenho que trocar, que é urgente, que depois toda a gente quer fazer gracinhas como aquela.

Pergunto-lhe o nome e estou em casa. Madame Moreira chama-se Hermínia, fala-me agora num português-mélangé e desculpa-se pelo sindique, mas que tem mesmo que ser. Explico-lhe a confusão que é aterrar, responde-me que sabe bem o que isso é. Arregaça as mangas, vai tratar de tudo comigo antes de “fazer as escadas”.

“Estou ici vai p’ra 35 anos, vim com o meu marido e depois de ele morrer – morreu aos 39 anos –, mas só mesmo bastante depois de ele morrer, e só depois de os meus filhos também acharem que estava bem, casei com um francês. Já tenho os anos todos para a retreite, mas estou à espera que ele tenha a dele”.

É de Lisboa. E eu, mesmo sendo de Almada, aqui serei sempre lisboeta, “como eles dizem”. Vive “en face”, posso ir lá sempre que precise. E desmonta-me a campainha, “que-aqui-não-se-vê-tanto-o-papel-cor-de-rosa-mas-ali-ao-lado-vive-um-médico-que-é- proprietário-e-pode-não-gostar”.

Os filhos estão là-bas, em Portugal. O neto há de vir, correndo tudo bem, para Lille, onde tem a casa que é sua, que a pequenina en face é alugada.

“E desculpe-me estar vestida como uma cigana. Nos dias em que faço escadas visto-me assim. Estrago tudo com a lixívia e os produtos de limpeza”, e faz debaixo do peito um nó com as pontas das duas mangas de um casaco preto, almofadado porque “tem mesmo que ser assim”. Descemos de elevador, nós e o balde com água para o serviço.

Hermínia conta os dias que faltam para poder descansar, embora não lhe custe nada lavar cinco andares vezes os quatro prédios de que toma conta. Se dúvida houvesse de que é compatriota dos mais sublimes poetas, ela arrumava-se aqui: “Só espero que não me aconteça como a um primo meu, que 15 dias depois de ter a retraite morreu”.

Bom trabalho, até logo, passe para bolos e um café.

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