|| Joana Carvalho Fernandes
a ler
Fundação Calouste Gulbenkian, Joana Carvalho Fernandes, Paris, Paula Rego

A porta aberta para as histórias

Chegou escondida nos agasalhos, casaco, gorro. Sorria. Olhou as mulheres cão que enchem o pequeno pátio depois da escada em curva. Olhou-me. Segurou-me a mão, demorou-se. Desarrumou o cabelo desarrumado. E abriu a porta das suas histórias. Em vésperas de fazer 77 anos, Paula Rego inaugurou a primeira exposição representativa da sua obra em França, na Fundação Calouste Gulbenkian em Paris.

[Para a Agência Lusa]

São três dezenas de pinturas, gravuras e desenhos feitos entre 1988 e 2009 e ficam expostos até 01 de abril.

“Há aqui muitas coisas que faltam, está claro, porque há muita gente que não empresta. Têm [a obra] lá em casa a tapar o fogão e não emprestam”. A viagem segue assim, a dizer sem rodeios, a provocar, a correr em fio as personagens, os objetos, as cores, as datas. A rir.

A diretora da Fundação Paula Rego/Casa das Histórias arrumou as obras seguindo uma linha de emoções: “São obras densas, bonitas, feitas no período de maior maturidade artística da Paula Rego. É uma exposição que entra no campo da paixão”.

O percurso começa com a obra “A família”, que desenha uma mulher, mãe e duas filhas, na tentativa de reanimarem “a todo o custo” o marido, pai. Mas que é “muito sexual” e mesmo “perversa”, vai contando Paula.

Pelo caminho não faltam a “Branca de neve”, que “mesmo a morrer, mesmo a cair numa posição perigosa, cuidou de tapar as calcinhas”, a “Guerra”, “com a formiga rabiga, que é a prima Manuela, e uma senhora que tocava piano lá no Estoril”, ou ”O Pillowman”, uma “história horrível, inspirada na peça do irlandês Martin McDonagh, que neste quadro também se passa no Estoril”.

Já sentada, volta feita, diz de Portugal e da sua Casa das Histórias: “A casa em si é uma maravilha, muito bonita. O problema é que vive com imensas dificuldades porque não há dinheiro para manter o museu como deve ser. [É difícil, por exemplo], arranjar exposições boas para irem para lá, mesmo de autores portugueses, mesmo exposições pequenas, que não custem muito dinheiro”.

A partir do dia 07 de julho a casa acolhe o resultado de um “desafio” que partiu da artista Adriana Molder, nascida em 1975 e residente em Berlim: é um diálogo dentro do mesmo espaço, desenhado para contar a história da “Dama Pé de Cabra”, a lenda popular que Alexandre Herculano pôs em livro.

Sobre este trabalho, Paula Rego diz apenas que a história “é muito curiosa e muito difícil” e que a sua “Dama Pé de Cabra” tem os pés a arder: “Eu já comecei e está a tornar-se noutra coisa. Começa-se assim e torna para outro lado. Já voltou e vai tornar a voltar. Não sei onde vai acabar. Assim é que é bom”.

No centro da sala, e nas suas costas durante toda esta conversa, esteve o “Anjo”, a mulher que segura com uma mão a espada, com a outra uma esponja. O seu anjo, como lhe chama, vestido com uma saia sua e uma camisa de seda da sua avó: “Este anjo é o fim. Fi-lo para ser um anjo bom, que salvasse… E disse: ‘este não vendo, é para mim’”.

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Discussão

2 thoughts on “A porta aberta para as histórias

  1. adorei!!!!

    Posted by alvaro | Fevereiro 22, 2012, 22:13

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