|| Joana Carvalho Fernandes
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Comunidade portuguesa em França, Emigração, Emigrantes, Joana Carvalho Fernandes, José Baptista de Matos, Paris

Uma vida “a lutar por 1,5 milhões de pessoas maltratadas por França e por Portugal”

José Baptista de Matos chegou à gare de Austerlitz, em Paris, em 1963 para, “a mando da liberdade, saber o que era a França”: viveu num bairro clandestino, chefiou centenas de homens, recebeu na quarta-feira a Comenda da Ordem Nacional de Mérito.

[Para a Agência Lusa]

José tem quase 80 anos. Usa uma boina à esquerda e um sorriso sempre. Conduz em França um “carro simples”, igual ao que conduz em Portugal: branco, pequeno, económico. Ambos assim, “quanto basta para as voltas”, ambos com abril no retrovisor: dois cravos, um de plástico, um esculpido, viçosos como a sua memória.

José fala com a energia com que tem vivido: a querer, a fazer, a conseguir. Viajou no “Sudexpress”, como milhares e milhares de portugueses da sua geração. Fugiu, como eles, “do medo que tinha sido ensinado a ter: o medo de falar, o medo de atuar, o medo de não ir à missa, o medo de tudo”. E saiu porque tinha um sonho: permitir aos filhos estudarem na universidade.

“Quem me arranjou o passaporte foi o presidente da câmara na altura, que era da minha idade, e que tinha conhecimentos. Chamou-me maluco quando lhe disse que queria ir à França, mas eu insisti. Deu-me um passaporte de turista, válido por três meses, e que passou a passaporte de emigrante porque, quando regressei a Portugal, ao fim desse tempo, já tinha trabalho em França”, conta.

A luz de Paris e o brilho do Sena contrastavam com a imagem da aldeia de Alcanadas, na Batalha, onde a eletricidade e a água canalizada ainda não tinham chegado. “Outro mundo”, diz José.

Depois desse, “outro mundo ainda”: o português instalou-se no bairro clandestino de Champigny, o “bidonville”, o “enclave português”, como lhe chamou um programa da televisão francesa. Ali viveram entre 10 e 15 mil portugueses nos anos de 1960.

Arranjou trabalho “mesmo sem saber falar francês”. Nas obras, “mas sempre a estudar” e “sem parar um dia”: “Enquanto os outros comiam e bebiam, lá no bidonville, eu lia para aprender francês. Saía, ia a Paris, às bibliotecas, aos jornais, fui subindo na carreira”, conta.

José chegou a encarregado-geral no metro da capital. Tomou sempre o partido dos trabalhadores, diz, “mas sem cartão partidário”. Era impossível não ter agido assim: “Quando cheguei, em 1963, e comecei a trabalhar nas obras do metro, vi a grande maioria dos portugueses assinar a folha de ordenado com uma cruz. Isso fez-me sentir uma revolta muito grande”, afirma.

Aderiu à Confederação Geral do Trabalho (CGT) porque “era necessário e urgente que os portugueses começassem a reivindicar os seus direitos” e trouxe a Fontenay-sous-Bois, cidade dos arredores de Paris, onde vive desde que saiu do bairro de lata, “todos os gajos da revolução” porque acredita que se não se deve “cantar para adormecer” mas “cantar para acordar”. Não tem cartão político, nunca teve.

O emigrante foi membro fundador e dirigente da Associação Portuguesa de Fontenay-sous-Bois, trabalhou na geminação da cidade com a Marinha Grande, foi Conselheiro das Comunidades durante oito anos e publicou dois livros: “História, cultura e tradições das Alcanadas” (2005) e “Uma vida de militância cívica e cultural” (2011).

José Baptista de Matos é a voz – e a cara – de Portugal no Museu Nacional da Imigração de França. No museu está a sua história e 19 objetos que ajudam a contá-la, como o capacete do trabalho, os diplomas, fotografias e o passaporte.

A Comenda da Ordem Nacional de Mérito, com que o Presidente Cavaco Silva o agraciou no 10 de Junho, e que recebeu das mãos do embaixador em Paris, é a sua “quarta ou a quinta medalha”. É uma distinção que considera “muito natural”: “A minha vida tem sido dada a Portugal, à sua história, cultura e tradições. É uma vida a lutar por mais de um milhão e meio de pessoas maltratadas por França e por Portugal”.

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